Não é um livro de Jane Austen, mas dá uma grande história de amor
por Fernando Gil Paiva
Quem pode dizer que nunca na vida colecionou alguma coisa ou teve apreço por um determinado tipo de objeto? Tem gente que gosta de colecionar latinhas de cervejas de várias partes do mundo, outros coletam selos e moedas antigas, outros carrinhos, gibis, revistas e assim por diante. A relação é forte e para os que colecionam cada objeto tem seu valor e estima.
Os verdadeiros colecionadores amam aquilo que tem verdadeiramente, criam relações de afeto, sentem ciúmes, e dedicam tempo de suas vidas a tal prática. A psicanalista Adriana Rangel explica que o ser humano tem essa prática de atribuir valores e isso é algo cultural e inerente ao homem. “Séculos atrás, colecionava-se troféus, armas, medalhas e atribuía-se a isso um grande valor simbólico. Cada cultura, junto com seus traços hierárquicos e subjetivos tinha apreço e afeição por determinado tipo de objeto e coleções poderiam existir tanto para comunidades ou individualmente”, diz.
O passar do tempo e o evoluir gradativo das relações humanas, também fez evoluir objetos colecionáveis e hoje as pessoas detém um número incontável e inimaginável de artefatos cheios de história e importância para cada um de seus donos.
Cinemas & Romances
Quando Rafaela Gomes tinha doze anos o que não faltava era tempo para ler e ouvir seus CDs. Desde muito pequena, dois traços marcantes denunciavam-na como uma precoce colecionadora. O tempo foi passando e hoje, com 20 anos, a estudante do terceiro semestre de Jornalismo na UFMT, divide sua atenção entre DVDs, livros e CDs. Para Rafaela, suas coleções representam mais que um simples hobby. “Acho que a coleção deve estar relacionada ao que desperta ou despertou sonhos em você, como os livros na minha vontade de escrever, os DVDs na paixão por direção e os CDs no amor pela música em si”, conta.
Ainda no início de suas vontades por comprar CDs, principalmente, Rafaela afirma que era muito difícil e frustrante sair de uma loja de música sem levar nada. Mas aos poucos foi administrando impulsos por livros e músicas, o que ainda não se firmou para sua nova gana por DVDs, que já está perto de 70. Cada objeto, parte da coleção de Rafaela, tem hoje o seu valor e mesmo depois de tempos sem ouvir determinado tipo de música ou ler tal literatura, o que ficou foi uma marca de seu amadurecimento e ela vê isso muito positivamente. “Colecionar faz bem. Eu acho que é quase uma terapia. Um descanso. Não sei se para muitos funciona assim, mas para mim é desse jeito”, conclui.
Bazares & Trocarias
Segundo o escritor Manuel de Barros, o ser humano constitui para com seus objetos o que se pode chamar de “achadouros”. Tudo o que você reúne torna-se um desses. Um achadouro da infância, por exemplo, pode ser aquela caixa antiga que você guardou coisas e nem mesmo se lembrava. Coisas que tinham algum valor, depois se perderam e que quando encontradas, serviram de objeto de visitação ao passado.
Muitos achadouros acabam sendo redescobertos em Bazares e Trocarias do acaso. Raquel Lima, 20 anos, estudante de Rádio e TV, contribui também como colecionadora para a formação de achadouros que se formam por pessoas muito distantes umas das outras. Sempre gostou de comprar roupas, sapatos e bolsas e quando descobriu que havia muita gente que vendia esses artefatos por Internet passou a dar preferência para essas vendedoras.
“Confesso que meu consumismo foi aumentando com o tempo”, conta Raquel. Entretanto, comprar por meios virtuais passou a ser um meio mais interessante e econômico para ela, pois é possível achar objetos a preços mais acessíveis em grandes centros, como Rio de Janeiro. Então, diante dessa nova possibilidade, Raquel se juntou a uma amiga e criaram um bazar virtual onde pessoas de todo o Brasil podem vender ou comprar objetos que fazem parte de seus “achadouros particulares”.
Ao mesmo tempo em que busca objetos que tanto quer, outras pessoas reconhecem parte de suas coleções nas coisas que Raquel tem. “Se eu enjoei de alguma peça, se ela não cabe mais ou simplesmente não condiz com o tipo de roupa que uso atualmente, eu vendo. Ou se estou precisando de um dinheirinho extra”. Coleções e compulsões à parte, alguns dos novos colecionadores tendem a se moldar mais flexíveis e menos ciumentos.

Já as Trocarias ficam por conta da também estudante de Comunicação Social Talyta Singer, 23. As Trocarias são grandes reuniões de objetos que as pessoas, geralmente um grupo de alunos, resolveram se desfazer. Tudo fica disposto em uma mesa e o método de troca é basicamente guiado pela pergunta: “Quanto o que eu tenho tem valor para você?”. Então, em troca, dá-se um objeto de valor cultural e subjetivo semelhante.
Talyta conta que em uma das Trocarias feitas em Cuiabá, não necessariamente dentro da UFMT, uma menina se encantou um com jogo de pequenas xícaras de plástico que não tinham valor aparente nenhum. “Mas para a menina sim, e logo que soube do sistema de troca, trouxe um pato feito de origamis que era muito mais elaborado e “caro” do que o brinquedo de R$1,99”, comenta Talyta. Então, a função dos achadouros faz mais sentido, pois tudo é baseado em valores subjetivos e suas atribuições na vida de cada ser humano. “O apego que dá valor e lugar para as coisas no mundo”, completa a psicanalista Adriana Rangel.
Sapatos & Memórias
“Não vejo o ato de colecionar, no meu caso, sapatos, como uma obsessão. O objetivo é mesmo ter a peça e o sentimento que ela desperta é de admiração, admiro os criadores daqueles sapatos como pessoas que exercem uma habilidade específica com um produto final. É como compartilhar uma criação”, conta Laís Costa, 20, colecionadora de sapatos que já chegou a ter mais de 50 pares, antes de se desfazer de alguns. “Agora eu prefiro ter peças que desejo e sei que vou usá-las”, conclui.
O próprio ato da admiração do objeto pode ser aplicado a tudo: ao diretor do filme, ao designer da bolsa, ao criador do selo, ao detentor de uma coleção de obras expostas em um museu. Grandes colecionadores também sublimam seus amores e obsessões com o público que freqüenta exposições e museus e se rende aos mesmos desejos. “Esses colecionadores ocupam um lugar público no mundo”, diz Adriana Rangel, no que compete ao sentimento de admiração que tem Laís com seus sapatos.
Kristielle Regina, 22, estudante na UFMT de Psicologia, acredita que objetos que ela colecionou, especialmente na infância, como é o caso dos “Achadouros de Infância” de Manuel de Barros, ajudaram a formar a sua personalidade. “Muitos influenciaram até em algumas das minhas escolhas e na formação de planos para meu futuro, assim como o meu gosto por um tipo de música, por também gostar de desenhar e, principalmente, por gostar de escrever”. Em seu achadouro, que pode ser real ou apenas lembrança, Kristielle diz ter reencontrado, pedras que colecionava, historinhas, o menino Jesus de gesso, a bússola que brincava imaginando estar perdida, a coleção de moedas, a trilha sonora dos Cavaleiros do Zodíaco e outras coisas mais.
O fato é que não importa ao que cada ser humano é ligado, o que importa é que cada objeto faz de cada pessoa um ser cheio de culturas diferentes, traços e peculiaridades. Coleções e obsessões por temas, pessoas e coisas rondam e contam grandes histórias de hobbies e amor. Cinemas e romances, bazares e trocarias, sapatos e memórias exemplificam o que a maioria das pessoas cultua em seus altares, que podem ser, na medida do normal ao bizarro, fontes de orgulho ou preconceito, razão e sensibilidade. Tudo depende dos olhos de quem vê.
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