Um filho quente de Capote
por Fernando Gil Paiva Martins
Não é comum olhar para a capa de um livro e ver escrito nela, além do título e de seu autor, o desfecho resumido em uma frase. Muito porque esse não se trata de um livro comum. E tudo começou quando Truman Capote, escritor já conhecido nos Estados Unidos por Bonequinho de Luxo, deparou-se com a notícia que repercutiria em um dos melhores livros reportagem da história. A morte de quatro membros de uma mesma família de um modo tão curioso e brutal que merecia ser investigado a fundo.
Com o foco estabelecido para seu novo livro, Capote comunicou seus editores e partiu para onde tudo havia acontecido – Holcomb, no estado do Kansas, Estados Unidos. A partir de então, um mergulho de mais de um ano de conversas, entrevistas, pesquisas e envolvimentos dariam origem a um novo tipo de literatura, o “romance sem ficção”, assim definido pelo próprio autor.
E as palavras “sem ficção” fazem da já mencionada descrição inicial da capa do livro algo mais aterrador. “A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos executados, cinco anos depois” só coloca seu público na posição de saber que algo muito marcante aconteceu e cuja repercussão era razão suficiente para ter dado a origem a uma obra escrita por Truman Capote.
Herb (o pai); Bonnie (a mãe); Nancy (a filha); e Kenyon Clutter (o filho) transformaram-se, então, em personagens principais de sua própria tragédia. Nas mãos de Capote, de uma forma um tanto desconfortante, tem-se a sensação clara da proximidade de cada um deles. Ele tinha o dom de trazer a vida aqueles que já tinham partido e tinha o dom de, com suas palavras, deixar o incômodo dessa realidade que por vezes, como leitor, pode-se vir a esquecer.
“Naquela noite, depois de secar e escovar os cabelos, prendendo-os com um lenço vaporoso, deixou separadas as roupas que pretendia usar na manhã seguinte para ir à igreja; meias de náilon, sapatos pretos sem salto, um vestido vermelho de veludo – o mais bonito que tinha, que ela mesmo fizera. Seria o vestido com que a enterrariam”. (CAPOTE, página 86)
E nesses golpes, certeiros, volta-se à realidade e lembra-se de uma imagem que ainda está por se formar – a da família morta em sua própria cada. “A Sangue Frio” é repleto de personagens e fontes, desde os vizinhos, a família Ashida, o policial Dewey, a melhor amiga, o futuro namorado primeiro suspeito, entre outros. Como numa reportagem, Capote teve que conversar e convencer muita gente a lhe contar as coisas que ele precisava saber e isso inclui, especialmente, as longas conversas que teve com os dois responsáveis por tudo.
Tão logo se começa a ter o esboço dos moradores de Holcomb, logo também são apresentados os outros atores principais da obra: Perry Smith e Richard Hickock (o Dick). E durante a narrativa rica em detalhes, pouco importa quem é quem, pois parece que todos estão próximos o suficiente para que se seja íntimo de cada um, o que permite a entrega do leitor ao livro, à história.
Pensando tecnicamente na narrativa que Capote construiu, pode-se pensar que se fosse uma casa, ele construiu lentamente cada lado oposto dela, colocando tijolos aparentemente aleatórios, mas que logo se perceberia que cada coisa fora pensada e que o lugar fora acertado na escolha. Essa é a nítida sensação que se pode ter ao ler a obra “A Sangue Frio” de Capote. E não apenas ficar deslumbrado por técnica, mas pela habilidade incrível que ele possui em fazer você – leitor – querer realmente saber como aconteceu mesmo que já saiba o fim de todos os envolvidos na noite de 50 anos atrás – dia 15 de novembro de 1959.
Se é possível se entregar de amores à Nancy, que sempre ajudava a todos em sua cidade, fosse para fazer um bolo, ou ajudar nos estudos, ou costuras, a capacidade em se gerar ódio e indignação com relação a Dick era com a mesma facilidade. E não era preciso lembrar quem ele tinha matado, mas apenas dividir seus pensamentos e sua conduta durante dias comuns, como o dia perfeito para se matar um cão.
“O carro estava em movimento. Trinta metros adiante, um cachorro trotava ao longo da estrada. Dick desviou o carro em sua direção. Era um vira-lata meio morto, esquálido e sarnento, e o impacto, quando o carro atingiu o animal, foi apenas um pouco maior do que teria sido produzido por um passarinho. Mas Dick ficou satisfeito. “Rapaz!”, disse ele – e era invariavelmente o que dizia depois de atropelar um cachorro, o que fazia sempre que tinha a oportunidade. “Rapaz! Esse a gente esmagou mesmo!” (CAPOTE, página 150).
Capote conduziu amores e ódios e, muito conforme seus relacionamentos, também tentou fazer com que seu público não odiasse tanto Perry, já que este teve muito mais disposição e afeição para conversar com o escritor em trabalho de pesquisa. Amores e desamores à parte, a culpa não lhe fora tirada.
Quem lê “A Sangue Frio” muito provavelmente terá as sensações muito semelhantes a quem leu décadas atrás quando lançado. O fervor e a aclamação da obra é um registro perene de seu talento para lidar com vidas – e palavras. Os Clutter poderiam ter ficado apenas nas notas de jornal, se Truman Capote nunca os tivesse folheado. Poderia ter passado para o estado do Kansas como mais apenas uma chacina. Poderia hoje ter ficado enterrada ao lado do vestido de Nancy e de todos os outros.
O que se tem nas 432 páginas desse romance sem ficção é a realidade crua, daqueles que tiveram que, com muito sangue frio, lidar com tragédias pouco eventuais. Capote já era uma grande distinção dentre outros escritores e “A Sangue Frio” lhe trouxe o eterno. O que aconteceu exatamente até a morte é razão suficiente para que qualquer leitor queria conhecer a mente de um escritor ímpar. Truman Capote, nasceu em 1924 e faleceu em 1984, por motivo de uso de drogas. Ele nunca mais fora o mesmo depois de Holcomb, depois dos Clutter e depois de Perry Smith (em especial).
Hoje, “A Sangue Frio” é distribuído pela Companhia das Letras e custa R$54,00.

Fernando, lembrei que não tinha comentado aqui no WordPress ainda…
Lendo o seu post e o do Laís me deu mais vontade ainda de ler esse livro!
Valeu pela dica.